Compromisso antigo para compor a pensão, todas as manhãs a Ti Quitéria dá uma barrela à tasca, antes de o Adegas abrir o estabelecimento à clientela.
O cheiro a detergente deixa o taberneiro agoniado e ele estaciona na ombreira da porta, a ver quem passa, enquanto dispersam os vapores do amoníaco.
Estava nisto quando a vista se lhe desatina num samba incontrolável, as pálpebras acima e abaixo e as pupilas a revirarem.
Já pensava ser vítima dos químicos quando o olhar estanca na origem do delírio: crescia para ele um decote magnético a que a visão periférica adicionava umas curvas de harmonia divina.
Quase em transe, o Adegas julgou que eram musas a indagar “vendji cigarro, senhô”?
Não fora o safanão da Ti Quitéria, à laia de despedida, e ainda hoje o taberneiro estaria de boca aberta e olhar vítreo à porta da tasca.
Que “vendo, sim senhora, por quem é, faça favor de entrar”, desfazia-se ele em mesuras. E “vai um cafezinho, oferta da casa?” pretexto para entabular conversa e ficar a saber das injustiças do mundo que trouxeram tão excelsa figura de sonhos tropicais às agruras do mundo rural, a cuidar de acamados, fazer limpezas e outros biscates que pagam o sustento.
E o Adegas a desfiar conversa e a ganhar “cônfia”, de tal modo que à despedida até larga dois ou três piropos do repertório da casa, coisa de tão fino recorte que fez desandar a baiana com o lábio descaído e a franzir o cenho. “Não percebeu as subtilezas”, julgou o Adegas.
Nunca o mata-bicho foi tão bem servido lá na tasca. Desde o limbo em que pairava o Adegas, toda a manhã jorraram doses magnânimas de aguardente para gáudio dos clientes, enquanto ele conjecturava forma de se entretecer no quotidiano da brasuca.
À hora do almoço, ainda com a lembrança do portento a pairar-lhe na retina, dividia a atenção entre uma esfera de moscas que revolteava no centro da tasca e o noticiário da televisão. Fábricas a fechar, despedimentos, protestos, lay-off.
“Lay-off!” Iluminou-se a fronha do Adegas. Quais oferendas, quais jóias, quais flores. O lay-off é que traria a bela ao covil do monstro. Invocava a crise, despedia a Ti Quitéria e fechava a tasca. Uma semana depois voltava a abrir com a brasileirinha no lugar da Ti Quitéria.
Eufórico com a estratégia, o Adegas exibia um sorriso alarve quando entrou na tasca o Arnaldo Fuligem, ferroviário e delegado sindical eleito, dono de um metro e noventa de físico musculado a transbordar do fato-macaco.
Sem uma palavra, a manápula do Arnaldo filou-se no pescoço do Adegas e elevou-o a um palmo do chão. Mais forte ainda foi o troar da voz do sindicalista, abalo telúrico arrasador para os sonhos lascivos do taberneiro:
- Se voltas a mandar bocas porcas à minha Zuleica enfio-te uns bufardes no focinho que te rebento.
E sem mais se foi, deixando o Adegas atarantado, a digerir a afronta e já a invectivar os sindicatos, esses empecilhos da modernidade que atrapalham toda a iniciativa patronal, tolhem o empreendedorismo e impedem a prosperidade do tecido produtivo.